11.16.2008

O relógio do teu avô

Estamos a dezasseis de Novembro de de mil novecentos e noventa e oito, o que, na realidade, pouco ou nada importa. Há dois atrás começámos a namorar de forma estranhamente estável. Eu jornalista, com horários indignos, num constante estado de profunda irritação e uma queda pouco simpática para o álcool na companhia do Bairro Alto. Tu funcionária pública, trabalhadora dedicada e suficiente, tranquila e amante de noites passadas debaixo doedredão emigrado ao sofá da sala. Nós improvavelmente apaixonados e tolerando as nossas radicais diferencias desde o primeiro momento em que nos conhecemos, numa das tuas raríssimas excursões nocturnas. Um jantar de princesas, respondeste-me há dois anos quando te perguntei, declaradamente cheio de más intenções, o que faziam seis mulheres sozinhas e visivelmente animadas num bar da Rua da Atalaia. Completamente alheios ao que estávamos ali a fazer, ficámos a transaccionar palavras e sorrisos, ingredientes indispensáveis a qualquer história de amor digna de registo.

Agora, no meio da sala do andar recém-comprado em Carcavelos, discutimos o relógio do teu avô. Eu, sinceramente, acho uma barbaridade que queiras plantar uma peça de museu de madeira maciça na nossa sala tão sofisticadamente decorada. Decorada por ti, convém dizer.Tu defendes que isso é absolutamente irrelevante, que o relógio é uma herança e as heranças são para respeitar. Não vais deixar o relógio do teu avô na cave a acumular pó e anos. É uma afirmação categórica.

Daqui a vinte minutos, farto-me desta conversa, fecho-me a sete chaves dentro dos meus muros e que faças como quiseres, a mim pouco me importa. Uma vez mais, acusas-me de, uma vez mais, terminar a discussões sempre da mesma maneira, afastando-me e transformando-a na má da fita. Não é nada disso. Não entendes. É que realmente pouco me importa onde pões o raio de relógio. Nunca me importou. Mesmo. Só tentava, uma vez mais, tentar encontrar um pouco de lógica na tua linha de raciocínio. Por estar tão habituado à tua visão clara, racional e inequívoca do mundo, nunca sei como reagir quando de repente sais do padrão. Enfim, o que esta casa precisa é de uma garrafa de whisky.

Na nossa primeira grande discussão, há vinte meses, faço o mesmo, é verdade. Tinha decidido passar duas semanas na Irlanda. Sozinho. Sempre gostei de viajar sozinho. Não achas grande piada ao tema e rebentas. Um evento tão raro como assustador. Acusas-me de egoísmo. Verdade. Não entendes como nem sequer te convidei. Não esperava que entendesses. Não havia nada para entender e, no entanto, a discussão dura horas e hora. Finalmente anuo. Cancelei a viagem para passar esses quinze dias contigo no Algarve. Odeio o Algarve. Odiei-te e odiei-me por ceder naquele momento. Daqui a vinte minutos pouco me importa onde pões o relógio do teu avô.

Da mesa para o móvel da parede. Do móvel da parede para estante dos meus livros. Passeias o relógio de um lado para outro numa missão impossível de descobrir onde fica melhor. Melhor é um termo muito relativo, claro. Sentado no sofá, discordo metodicamente.

Daqui a um ano e meio, sais de casa. Depois de dois anos de namoro, um e meio de convivência está-me a dar a volta a cabeça. A tua presença em casa. Constante. A tu incapacidade repentina de aceitar os meus horários e hábitos de trabalho que nunca antes te tinham incomodado. As tuas oscilações de humor repentinas que, das duas uma, ou se desenvolveram ao largo deste ano e meio ou as soubeste esconder muito bem de mim antes de mudança, saturam-me. Sinto-me abafado. Invento desculpas para ficar a trabalhar até tarde e em casa encerro-me em copos de Glenlivet com gelo. Tu não aguentas mais e, daqui a um ano e meio, vais-te embora.

Não será a primeira vez que me deixas. Há coisa de um ano decides acabar comigo. Nesse momento acreditas, ou pelo menos dizes acreditar, que a relação não tem futuro porque eu não sou capaz de me comprometer. Acusas-me, com razão, de que eu te vejo como um elemento alheio e estranho, com um lugar indefinido na minha vida. Sem argumentos calo-me e aceito a tua decisão. Dois meses depois voltas. Convidei-te para jantar e sugeri fôssemos viver juntos. Com lágrimas nos olhos dizes-me que sim e voltas a beijar-me. Que expressão mais brutal, acabar com alguém.

Saio à rua, daqui a vinte e cinco minutos, à procura de um sitio qualquer que me venda uma garrafa de Glenlivet a esta hora, enquanto tu continuas a passear o relógio de móvel em móvel.

Há um ano e um mês estou na cama com uma companheira de trabalho, deitado nu ao lado do seu corpo adormecido, a pensar que o meu lugar é ao lado do teu corpo adormecido. Decido recuperar-te, nem que tenha de ir viver contigo.

Daqui a um ano e sete meses estás na cama com um jovem que conheceste no escritório. Ele está apaixonado por ti e tu tentas esquecer-me perdida na paixão, incondicional e algo torpe, com que ele faz amor. Eu não estou, nem estarei, com ninguém, até que voltes a viver comigo, daqui a um pouco menos de dois anos. Promessas de parte a parte, o jovem de coração partido e nós juntos na mesa a jantar. Frente a frente. Nós juntos na cama. O teu corpo adormecido ao meu lado e eu a pensar se o meu lugar é realmente aqui.

Finalmente decides-te pelo móvel da televisão. Mesmo ao lado do ecrã. Acreditas que o contraste do moderno e do antigo dá um toque iconoclasta ao arranjo. Daqui a quarenta minutos volto a casa de Glenfiddich na mão. Não tinham Glenlivet. Tu perguntas e eu respondo, pouco me importa onde fica o relógio. Começamos bem.

Há um ano e meio digo-te pela primeira vez que te amo. Tu há muito que me o dizes quase todos os dias. Para mim sempre foi algo complicado de verbalizar assim de forma tão textual e concisa. Contudo, abraçados no sofá a ver uma qualquer série de televisão norte-americana, tal como tu gostas, beijo-te o cabelo e digo-te que te amo. Tu sabes.

A minha indiferença passiva despoleta uma explosão de indignação no teu peito daqui a uma hora. A primeira entre estas paredes acabadas de pintar. A casa também é minha, dizes, a sala é minha, dizes, eu também tenho de tomar decisões, dizes, o relógio agora também é meu, dizes. Este relógio não é, nem nunca será, meu, digo. Perguntas-me como é possível que eu seja assim, se não tenho noção de que a minha atitude te põe furiosa, se não sou capaz de fazer uma pequena concessão nem para uma coisinha destas. Não.

Daqui a seis anos está a ver o teu chefe no loft dele quase todos os dias depois do trabalho. Excepto quando estou de folga, aproveitas o meu horário para buscar conforto, segurança, carinho ou seja lá o que for. Saem do trabalho com uns minutos de diferença para não levantar suspeitas e encontram-se momentos mais tarde abraçados na cama. Em casa és tu que te afastas e te fechas a sete chaves. Ao fim de tanto tempo aprendeste comigo a arte da indiferença e da distância controlada, mesmo num espaço tão exíguo. Confuso, desconhecedor da realidade dos factos, perco-me em tentativas estúpidas de solucionar um problema que pouco ou nada tem a ver comigo. Já não me amas. Não és capaz de me voltar a deixar, depois de tudo o que passámos, más já não me amas. Simples.

Há quatro meses estou sentado sozinho em minha casa com um whisky na mão. Acredito sinceramente que és a mulher da minha vida. Prometo-me em silêncio ficar contigo para sempre. Apoiar-te em todas as ocasiões. Manter-me ao teu lado passe o que passe. Sei que te amo. Não tenho dúvidas que tu também me amas. Entre golo e golo de Whisky vou desenhando a nossa vida juntos.

Daqui a dez anos estamos sentados no sofá cara a cara. Sem nos tocarmos. Eu digo-te que já não te amo e que também não acredito que me ames. Sei que às vezes ainda vês o teu ex-chefe, apesar de que me tenhas prometido, dois anos antes, que estava tudo terminado e que não sentias nada por ele. Protestas e improvisas um plano de emergência para nos salvar. Um espaço. Um tempo. Uma viagem juntos a um lugar qualquer. Uma vez mais, não entendes. Pouco me importa. Entre o teu vai e o teu vai, eu vou para nunca mais voltar.

Daqui a dez anos e meio escrevo isto como se fosse hoje e pergunto-me onde estará relógio do teu avô.

11.11.2008

Preso

Há três dias que estou encerrado nesta cela e não há forma de entender o que se passou.

Como vim aqui parar?

Sentado na escuridão deste cubículo húmido, com as grilhetas a fazerem-me cócegas nas veias expostas dos meus pulsos e calcanhares, tento concentrar-me em recordar exactamente o que se passou naquela tarde. As memórias, fiéis à sua natureza, são confusas e caóticas, contrastando drasticamente com a realidade simples, diria inequívoca, da minha lúgubre cela. Lembro-me que amanheceu de forma semelhante ao dia anterior, com um esplendoroso sol outonal que nada logra aquecer, e que contudo acabou de forma radicalmente distinta e difusa. Pela tarde saí a passear pela Baixa para me perder entre os turistas divagantes e os residentes transitórios, todos em movimento sob o olhar de uma paisagem urbana estática e centenária. Gosto de passear por aí, algures entre o divagar de turista e o transitar de residente, e de fitar a vista nas montras pejadas de coisas que não me interessam para nada. De entrar nas lojas das respectivas montras e de ficar a apreciar a mercadoria, seja lá ela qual for, apesar de nunca ter a mais pequena intenção de aí gastar um tostão. Foi numa destas lojas de qualquer coisa que tudo se passou.

Não tenho a certeza, aliás, agora não tenho a certeza de nada excepto da realidade palpável destas quatro paredes gotejantes, mas creio que estava a manejar um qualquer artigo de roupa, provavelmente uma t-shirt se bem me conheço, quando entrou um jovem nervoso pela porta da loja. Ensaiou um grito, mas tudo o que lhe saiu, num fio de voz muito pouco coerente com o revólver que empunhava, foi uma espécie de ordem, quase um pedido para não dizer súplica, para pormos as mãos no ar que aquela merda era um assalto. Apesar da visível agitação e inexperiência do assaltante, ou talvez devido a isso mesmo, todos obedecemos. As jovens empregadas da loja minguavam dentro do seu escasso uniforme ajustado e os poucos clientes, eu incluído, limitámo-nos a anuir e a esperar, como se tudo aquilo não tivesse nada a ver connosco. Como se fosse um tema particular entre o jovem assaltante nervoso e as jovens empregadas minguantes.

De arma na mão a apontar para tudo e nada ao mesmo tempo, o patife assegurava-nos que aquilo não era nenhuma brincadeira e exigia que lhe entregassem todo o conteúdo da caixa registadora antes que fizesse mal a alguém. Entre a inquietude das empregadas e a indiferença paciente dos clientes ninguém se mexeu. Ninguém fez nada. Eu não fiz nada. Isto só contribuiu para elevar a condição do malfeitor de instável a declaradamente irritado. A sua face ossuda crispou-se como uma máscara de teatro japonesa e eu até cheguei a pensar que ouvia os molares dele a ranger desde o canto onde se encontravam. Posto isto, lembro-me, acho eu, que caminhou determinado até à caixa e pediu à empregada mais a jeito, de forma brusca e pouco educada, que lhe abrisse a merda da caixa. Ninguém se mexeu. Ninguém fez nada. Eu não fiz nada. O meliante, agora positivamente furibundo, agarrou o cabelo louro da empregada e, quase como se lhe fosse dar um beijo, aproximou-se da sua face e sussurrou-lhe para abrir a merda da caixa se não queria ir parar ao hospital. A pobre rapariga, transfigurada numa barafunda de varas verdes, foi incapaz de fazer fosse o que fosse e, num ápice, encontrou a superfície de vidro do balcão a envolver-lhe a cara e o sabor do seu sangue a florear-lhe os lábios. Cortesia do jovem bandido, claro. Eu não fiz nada. Ninguém fez nada. Ninguém se mexeu.

Ninguém excepto uma das outras empregadas que, estacionada mesmo à entrada da loja, levava vários minutos a tentar chegar, pé ante pé, à maçaneta potencialmente libertadora da porta. De repente, engatilhada pela confiança proporcionada pela proximidade da supracitada maçaneta, tentou alcançá-la de um salto. Sem dúvida tentava refugiar-se no abraço salvador da multidão de turistas divagantes e residentes transitórios, apesar deles tão indiferentes como nós ao que se passava entre as paredes e estantes do estabelecimento comercial em questão. Era uma fuga gloriosa, digna de um qualquer filme de acção. Ou assim teria sido se o gatuno, como qualquer gatuno que preze, não tivesse munido de um canto do olho, especificamente dedicado para estas situações. Num movimento único que não pode ter tardado mais de meio segundo, o assaltante cada vez menos nervoso virou-se na direcção da porta, imprecou contra a honra da mãe da pobre rapariga e disparou a arma apontada à sua delgada figura.

É a partir daqui que tudo fica especialmente caótico. Disseminado no espaço e no tempo.

Talvez despoletado pelo grito súbito do disparo, ou pela visão dos pedaços de cérebro, osso e sangue da jovem a escorrerem no vidro da porta ou até, suponho, por um despropositado impulso justiceiro de indignação, avancei para o assassino que fitava especado os estertores finais da empregada cada vez mais minguante no seu uniforme demasiado ajustado. Não sei porquê, mas avancei. Tão pouco claro como o porquê é o como. A verdade aparentemente inquestionável, segundo a opinião do juiz de instrução, é que desarmei o criminoso catatónico e, com a sua própria arma, lhe apliquei um singular e bem afinado disparo no osso temporal direito do seu crânio. Lembro-me muito vagamente de observar o corpo inerte da jovem a morrer no parquet, de sentir na minha mão o metal frio da arma, de cheirar excitado a pólvora do tiro, de sentir o sabor acre da minha bílis na boca e de ouvir a espontânea reacção de pura felicidade e agradecimento dos demais clientes. Quase que podia jurar, e de facto assim o fiz em tribunal, que um deles até me deu uma palmadinha nas costas.

A seguir? A seguir não sei.

Aqui sentado na escuridão absoluta da minha cela há três dias, fecho os olhos para tentar encontrar uma luz que dê corpo e alma ao que se passou a seguir. Mas por muito que feche os olhos, a única coisa de que me lembro é dos corpos do assaltante nervoso, das empregadas minguantes e dos demais clientes espalhados ao acaso pela loja. Sem vida. Como um baralho de cartas atirado ao ar.

Nas paredes e estantes as manchas do seu sangue, quais lâminas de Rorschach, parecem perguntar-me, O que é que você vê aqui?

11.03.2008

Mando

Tengo mi vida en pausa, hasta que vengas tú y pulses el play.

11.02.2008

He vivido una vida

Me acuerdo del día en que un colega mío me toco la espalda con su dedo índice, rompiendo mi línea de razonamiento e invadiendo la música que escuchaba en ese momento, y me comunicó que quería presentarme dos nuevas colegas de otro departamento que no el mío, para trabajar otras cuentas que no las mías. Alejado y sumamente indiferente, me levanté con una sonrisa automática y os di dos besos a ti y a tu contemporánea, complementados con el reglamentario Bienvenidas y un ampliar milimétrico de la sonrisa automática. Instantáneamente volví a sentarme, puse los cascos, me olvidé de vuestros nombres y me dediqué a buscar la línea de razonamiento que tan bruscamente había abandonado. Los primeros meses de convivencia profesional fueron asaz convencionales. Sonrisas y buenos días en los pasillos, dudas y preguntas esporádicas, comentarios risueños en la compañía de la máquina de café y poco más. Desde el inicio que me encantó tu simpatía radiante, tu energía, como si tuvieras más vida dentro de ti que la que podías contener. Disfrutaba realmente de tu compañía y cuando nos tocó trabajar juntos me quedé sinceramente encantado, aunque no podía imaginarme todo que lo que aún estaba por venir. Nadie podía, por que todo lo que tenía que pasar era absolutamente inimaginable.

Poco a poco las conversaciones y, más importante, las complicidades compartidas, aumentaron de frecuencia, hasta que se tornaron diarias, constantes. Un puente se empezó a construir en esos momentos. Yo desconfiaba, y confiaba a mis amigos, que creía que tu estabas interesada en mi. Era cierto. Siempre fiel a tu misma, me lo confesaste abiertamente y yo perdí el equilibrio. No estaba preparado para una declaración de intenciones tan abierta, sincera y sin compromiso. No me pediste nada, no me exigiste nada, ni me presionaste nunca para soltar un yo también. Tampoco estaba preparado para el salto mortal que dio mi corazón en ese momento al darme cuenta que el sentimiento era recíproco, y me quedé como un ciervo en el medio de la carretera. Hasta que tu viniste, me agarraste de la mano y me llevaste contigo a la seguridad de tus besos.

Fue un amor fulminante. Aplastante. Una ola imparable que arrasó con todo lo demás y nos dejó a los dos solos ante el mundo. Nos fuimos descubriendo, las diferencias, las semejanzas, los gustos, los miedos, los sueños. Dedicamos horas interminables a la exploración de nuestros cuerpos y nos fuimos aprendiendo como alumnos aplicados, completamente enganchados a la materia y hambrientos de saber más, más y más. Pasamos por momentos felices, momentos difíciles, lágrimas, risas, gritos de placer y silencios de profundo dolor y todo nos hacía más fuerte. Crecíamos juntos y el futuro se dibujaba con claridad. Recorrimos nuestros mundos juntos, tu país, mi país, mi familia, tu familia, tus amigos, mis amigos, mis santuarios, tus santuarios. Todo pasó a conjugarse en primera persona del plural.

La locura extrovertida fue madurando y las raíces de nuestro amor se volvían cada vez más fuertes y profundas. Un día, de una de las muchas semillas compartidas, nació nuestro hijo. Aún hoy, aquí sentado, lloro de emoción al recordar ese momento. Nació en mi mundo pero lo llevamos a crecer en el tuyo y, de un tirón, se transformó en el eje de todo lo que éramos. Cada palabra, cada sonrisa, cada suspiro exhausto lo vivíamos a través de nuestro chiquito, nuestro nene. Tuve algunos celos, es cierto, del tiempo que le dedicabas y dejabas de dedicar a mí. Pero rápidamente me dí cuenta que cada minuto que le dedicabas, lo hacías por nosotros. También nuestro hijo se conjugaba en primera persona del plural. Años más tarde, llegó ella. De sorpresa. Nuestra hijita no programada vino y nos trajo nuevos vientos de alegría. Tanta vida tenías dentro de ti que terminamos teniendo cuatro deliciosos hijos que educamos, me gusta creer que bien, lado a lado. Si hay algo que tengo claro al hacer este simple y doloroso ejercicio de memoria, es que todo lo hicimos lado a lado. Tuvimos problemas, innumerables problemas, conflictos, distanciamientos y fallos prácticamente imperdonables, pero todo lo vivimos lado a lado, incluso la separación de hace no muchos años, y siempre supimos encontrar el camino hacia el puente que nos unía.

Los años pasaron, siempre pasan, y con los años llegaron los nietos, la jubilación y los problemas de salud. Los primeros problemas que no supimos solucionar. A ti la edad te fue más cruel. Enfermaste, perdiste las fuerzas, la energía vital aparentemente, sólo aparentemente, inagotable, pero nunca la sonrisa. Nunca la simpatía esa que me encantó desde los primeros cafés compartidos por la mañana. Asustado, muriéndome de miedo de perderte, me mantuve siempre a tu lado. Te cuidé, te animé, te dí cariño y dediqué toda mi existencia a hacer que tus días fueran más fáciles de soportar, de vivir. Tanto te cuidé que llegué a creer que te estabas curando. Creí ver más color en tus labios, más brillo en tus ojos, más energía en tu voz. Creí que te ibas a curar, que íbamos a volver a ser jóvenes y hacer el amor con tanta energía y entrega como en esos primeros meses ahora tan lejanos. Creí que te podía curar con la fuerza de mi amor.

Hasta que un día te caíste de las escaleras.

Yo estaba en mi despacho aislado, escribiendo y escuchando música, como casi siempre cuando no estaba a tu lado en la cama, y no te oí caer. No te oí caer ni te oí llamar mi nombre cuando estabas allí tendida, rota en el suelo. Debería haber estado ahí, para agarrarte la mano y ayudarte a bajar, como siempre, pero no estaba. Cuando me levanté y caminé tranquilamente hasta la escalera, llamando tu nombre, te vi tirada en el suelo, huesos rotos, cara de dolor implorando mi ayuda, segura que yo bajaría las escaleras y llamaría de inmediato a las urgencias, como tenía que ser. Pero no lo hice. Tuve la reacción más egoísta y más destructora de mi vida. Perdí los sentidos.

No sé cuanto tiempo estuve así, sin noción de mí, pero cuando me desperté en el hospital, gritando tu nombre en pánico, ajeno a mi mismo, vino un doctor, joven y preocupado, a decirme que habías entrado en coma. Mi mundo se desplomó y casi volví a perder los sentidos. Pero me agarré firmemente a todo lo que habíamos vivido y encontré en nuestra memoria fuerzas para levantarme de la cama, ignorando las protestas de las enfermeras, e irme a sentar a tu lado para, una vez más, agarrarte la mano.

Hoy aquí sigo, sentado a tu lado con tu mano en la mía, y tu ahí sigues, acostada de ojos cerrados. Lejos, tan lejos, más lejos que nunca. Más lejos de lo que yo creería posible entre nosotros dos. El doctor me dice, joven y preocupado, que lo más probable es que no me oigas. Que no sientas mi presencia, mis cariños, mis dedos en tu mejilla, mi mano en la tuya y mis lágrimas en la sábana de tu cama. Pero no me importa, no me iré de aquí. Siempre con tu mano en la mía, te hablo, te canto, te miro, te hago cariño en ese pelo que tantas veces acaricié para ayudarte a combatir el insomnio y espero. Espero y esperaré siempre. Pase lo que pase, esperaré y no volveré a perder los sentidos. Esperaré por que sé que vas a despertarte. Que vas a volver a mí.

Lo sé por que si no vuelves nada tiene sentido. Nada importa. Nada soy.

Tus ojos

El vacío de tus ojos son dagas que se clavan en mis puntos vitales y, poco a poco, drenan la débil vida que queda en mi. Poco a poco, lágrima a lágrima, solluzo a solluzo, sonrisa a sonrisa, dejo de ser quien soy. Dejo de ser quien soy por que cuando miro tus ojos no te consigo encontrar. Por mucho que te busque en la retina, la pupila y la iris no te encuentro por ninguna parte. Me he dado cuenta que lo tengo delante mío es una cáscara vacía de ti, un avatar que no reconozco, donde ya no encuentro ni un trazo de la persona por quien tan perdidamente me he enamorado. No eres tú la que tengo delante mío, lo tengo claro, y por eso me siento completamente perdido. Intento establecer contacto, construir un puente que me lleve hacia ti, hacia ese rincón perdido donde te has escondido, pero siempre me estrello contra tu sombra vacía y distante, incapaz de sentir, de llorar, de amar, de sufrir, de creer, de moverse dos centímetros para buscar mi mano perdida en el eterno espacio vacío que hay entre nosotros. Te busco desperado y no te encuentro. Sólo me queda esperar que un día abras los ojos y te reconozcas en el espejo.

10.30.2008

De mano en mano

Toma mi mano. Agárrala con todas tus fuerzas y no la dejes nunca. Pase lo que pase. Ni cuando me distraiga con un sonido brusco, ni cuando haga un movimiento para rascar la punta del nariz, ni cuando me desoriente por unos momentos y mis dedos se aflojen. Siempre volveré a buscar el calor de tu mano y la certeza de tu agarre para que, lado a lado, sigamos nuestro camino juntos.

Vamos?

10.29.2008

Lágrimas à chuva

As lágrimas à chuva molham mais. Não por causa da chuva que ensopa a roupa e os sapatos mas porque, quando chove, ninguém repara em ninguém e por isso não há que ter vergonha de chorar.

Se, por mero acaso, alguém especialmente observador ou mais indiferente à chuva repara e pergunta, a resposta é tão fácil como inequívoca, É da chuva.

O pior é mesmo quando se regressa a casa e, na solidão compartida com o reflexo no espelho, a vergonha de chorar renasce, os olhos se secam e a boca diz, sorridente e mentirosa, Não há de ser nada.

Miedo

Por la primera vez en mi vida he tenido miedo. Ha sido hoy, al final de la tarde, sin aviso. Como un golpe en la cabeza.

Toda mi vida he vivido sin miedo. Jactándome de mi confianza inquebrantable, caminando temerario siempre hacia adelante, sin mirar a los lados y mucho menos atrás. Sustos he tenido muchos, claro, pero miedo, ese miedo que desinfla los pulmones para ahogar el corazón, es cosa que no había sentido nunca.

Hasta hoy.

Hoy he descubierto que también sé tener miedo. Mucho miedo. Un miedo que me hace volver a ser el niño que nunca he sido, con pavor a la oscuridad y alos monstruos que se esconden bajo mi cama. Ese niño de mirada perdida buscando la mano de su mamá en una frenética multitud de dedos desconocidos.

Entrando en la habitación como un primer amante sin piedad, el miedo me coge de las muñecas y penetra hasta el rincón más vestal de mi ser. Siempre distante, evitando mi mirada. Indiferente a mi pánico descontrolado, mientras que yo, como un ciervo petrificado, me quedo mirando el miedo en los ojos,inmueble en el medio de la carretera, esperando el inevitable impacto.

Pero el impacto no llega y el miedo sigue ahí. Huyendo de mis ojos que buscan los suyos. Cuando se irá? Quién sabe? Quién sabe si se irá? Yo seguro que no. Sigo aquí, tirado en el medio del asfalto, esperando con paciencia y resignación el impacto que ponga fin al miedo y a todo lo demás.

10.27.2008

Espacio Geográfico

Me rebelo contra el espacio geográfico, contra los kilómetros, los hectómetros, los decámetros, los metros, los decímetros, los centímetros y los milímetros que me separan de ti. Contra el hilo de espacio vacío que se crea cuando dejo tu mano y entro en el taxi despidiéndome con el silencio de mis ojos.

Protesto contra el inmenso e indefinido espacio virtual de las palabras sin piel, de las frases sin temblor, del negro y blanco, de los te amos sin beso para sellarlos.

Me sublevo, qué más puedo hacer?, contra el espacio creciente de mi partida, contra el movimiento hacia la ausencia y contra el tiempo que pierde la prisa en cuanto me voy.

Felizmente, te lo confeso, te he robado un trozo de ti al dejarte la mano antes de entrar en el taxi. Espero que no te enfades.

10.20.2008

Dói

Desde que comecei a percorrer este caminho que há algo bastante claro: dói. Dói muito. Dói quando caminho e piso os vidros espalhados no chão deixando para trás pequenos mosaicos escarlates, sempre de olhos postos no horizonte. Sempre em frente. Sempre a caminhar mesmo que doa, mesmo que os ramos das árvores que povoam a beira da estrada me arranhem os braços e, de vez em quando, me rasguem os olhos. O destino é claro. A dor também. Aqui não há mistérios, nem dúvidas, nem sombra delas e por isso nem contemplo a opção de parar de caminhar. De quando em vez, não o nego, olho para trás. Há vozes, memórias e caras que chamam por mim perguntando-me que raio estou a fazer. Questionando-me se não sinto os ramos que me arranham os braços e rasgam os olhos, os vidros que me peneiram os pés. Mas estas vozes, memórias e caras são todas eu e eu sei como lidar comigo. Repito: dúvidas é coisa que já não tenho. Desde que o fim do caminho se tornou claro que o sigo com determinação. Até ao fim. Mas foda-se, como dói. Como dói sempre que a meio do caminho encontro uma bifurcação que me rompe ao meio e me atira aos pedaços por caminhos distintos. Entroncamentos cruéis que me arrancam a carne sem contemplações nem remorsos. Às vezes um braço, outras dois e, quando toca, uma perna. Os cruzamentos mais duros arrancam-me tudo menos a cabeça, que continua obstinada de olhos rasgados firmemente postos no destino. A fitar o destino nos olhos. E dói. Dói muito. Mesmo. Mesmo sabendo que mais à frente os caminhos se voltam a encontrar e que eu, por uns breves e deliciosos momentos, voltarei a ser um. Inteiro. Até que a próxima encruzilhada carnívora me despedace. Também doí, talvez mais que tudo o resto junto, o facto de eu não ter a mais pequena ideia a que distância se encontra o destino. Está sempre aí, à vista, mas as medidas tiradas a golpe de vista têm pouco de fiabilidade e muito de esperança. Há dias em que parece que está aí, ao alcance de um braço estendido, até que um ramo não hesita e me rasga de novo os olhos para me pôr no meu lugar. Outros dias há, muitos dias, demasiados dias, em que parece que está a uma distância avassaladora. Não sei que dias doem mais. Se fizermos as contas a dor é tanta que quantifica-la ou compara-la perde qualquer espécie de sentido. Dói. Dói quase sempre. Mas uma coisa é clara, eu vou continuar a caminhar. Mesmo quando já não tenha mais pés para ferir, nem braços para arranhar, nem olhos para rasgar, continuarei a caminhar. Porque este é o único caminho que conheço e o seu destino é o meu destino. Doa a quem doer.

10.16.2008

Lua cheia

Não suporto aquelas pessoas que, quando elogias uma lua cheia que te enche de luz e te acende os olhos, responde que na realidade não está cheia porque a lua cheia foi anteontem e agora já está minguante.

Gente assim não pode saber amar.

Agora sim

Tanto tempo tão longe. Tantos quilómetros. Tantas palavras, asteriscos, pontos finais e de interrogação. Tantos parêntesis. Tantas, mas tantas, reticências. Tantos equívocos. Tantos medos. Tanta incerteza. Tanta esperança. Tanta frustração. Tanta vontade. Tantos botões, teclas e afins. Tantos desencontros. Tantos, mas tantos, momentos de impotência tão feroz como incontornável. Tão longe. Tão frio. Tão cá dentro na ausência do aqui perto. Tantos beijos atirados ao abismo do tempo. Tantas lágrimas invisíveis procurando lábios que não se abrem. Tantos dedos irrequietos perdidos no seu despropósito. Tão difícil. Tão difícil. Tão inesperado, tão desconcertante e tão, tão real. Mesmo. Tantas voltas e mais voltas. Tantas repetições. Tantas. Tantas. Tantas. Tantas. Tantas. Tantas formas de dizer sempre o mesmo e tantas coisas ditas num único momento irrepetível. Tanta coragem. Tanta loucura. Tanta perseverança. Tanta certeza tão certa. Tão poucas dúvidas. Nenhum espaço vazio. Tudo é tão tanto que nada mais importa.

Tanto amor.

Agora. Agora sim. Agora que te tenho ao meu lado, tão tranquila no conforto do teu sorriso de quem pela primeira vez descobre o prazer do sono. Agora entendo porque tanto de tudo tão intenso. Sempre. Agora que estás aqui posso tocar-te o cabelo enquanto te olho nos olhos fechados. Repito. Agora que estás aqui, o tanto que nos passou é tão nosso como o teu último suspiro antes de adormecer ou o abraço sincero que encontro no meu peito.

10.13.2008

Me quedo

Me quedo. Me quedo porque no sé como irme. Aunque salga puerta fuera y entre ladrando en el taxi un destino a que no llegaré nunca, no me he movido ni un milímetro. Me quedo. Sigo aquí. Acostado a tu lado bajo un edredón que me mata de calor y encima de un brazo que nunca sé donde aparcar, sólo para sentir el toque familiar de tu piel contra la mía y la intensidad de tus dedos enredados en los míos, como si me estuvieras invitando a tus sueños. Sigo aquí por que solo aquí existo. Me quedo por que no me encuentro en ningún otro lugar. Eres el punto de partida y llegada de cada paso que doy y jamás, jamás, me oirás decirte adiós.

Real

Real? Vejo-me obrigado a repensar a minha definição de real. O palpável, o perceptível e o sensorial já não chegam para encher as medidas ao significante "real". Esta mesa continua aqui, não digo que não, e o cheiro a café do café não deixa de cheirar a café. A questão é que estas e outras constatações aparentemente óbvias do conceito de real, que normalmente são mais que suficientes para contentar a ideia de realidade de qualquer um [e até à bem pouco tempo a minha], são agora puros detalhes limítrofes de uma realidade que vai muito além do troço de contraplacado que serve de apoio à minha escrita e do líquido escuro e pungente que tenta manter-me desperto a esta hora indigna. O real é agora algo que extravasa os limites do eu, que bateu com a porta ao egocentrismo e saiu à rua a desfrutar da chuva. Sou testemunha da implosão de um paradigma teoricamente intocável. A definição do real já não mora em mim, não se encontra nas páginas do dicionário do meu ser. Habita um novo espaço, mais amplio e cada vez mais concreto. Um sabor que não é meu, um arrepio que não eriça os pelos da minha pele, uma palavra [ou duas] que não vibra nas minhas cordas vocais, um olhar que não existe quando me procuro no espelho e as respectivas lágrimas, que trago em vez de derramar. Por muito surreal que pareça, já não tenho a mais pequena dúvida.

A minha definição do real és tu.

Uma inutilidade

O primeiro que tenho de admitir é que só estou a escrever isto porque, ao folhear o meu caderno de palavras atiradas ao vento, me confrontei com estas duas páginas em branco. Ora, não há nada mais incómodo num recompilatório de textos que uma página em branco. Quanto mais duas. É que me senti praticamente insultado. Por isso voltei a manusear a caneta e pus-me a escrever este despropósito, este exercício de futilidade. Despropósito porque ainda nem sequer passaram dois minutos desde que pus ao papel um texto que deixou completamente nu de palavras. Despejado. Completamente desprovido da essencial matéria-prima que alimenta o meu vicio pseudo-literário. A mesma matéria-prima dos meus pesos no peito, da minha respiração interrompida, do meu gaguejar imperceptível, do meu sobrolho franzido e, finalmente, das minhas poucas e tímidas lágrimas derramadas. Não resta em mim o mais leve resquício da fonte de alimentação das fragilidades que fazem de mim [quase] humano. As mesmas fragilidades que me fazem [quase] escritor espontâneo e extemporâneo.

Não tenho nada para escrever. Nada de nada. Lamento. Mas é que não podia deixar estas páginas tão indecentemente despidas. Entendem, não entendem? É que isso não se faz, imagine-se que as palavras atiradas ao vento acabam aqui abandonadas numa desordem tão semântica como real. É um risco que não posso correr. Espero sinceramente que entendam. Desculpem lá o tempo perdido. Não o fiz por mal.