O relógio do teu avô
Agora, no meio da sala do andar recém-comprado em Carcavelos, discutimos o relógio do teu avô. Eu, sinceramente, acho uma barbaridade que queiras plantar uma peça de museu de madeira maciça na nossa sala tão sofisticadamente decorada. Decorada por ti, convém dizer.Tu defendes que isso é absolutamente irrelevante, que o relógio é uma herança e as heranças são para respeitar. Não vais deixar o relógio do teu avô na cave a acumular pó e anos. É uma afirmação categórica.
Daqui a vinte minutos, farto-me desta conversa, fecho-me a sete chaves dentro dos meus muros e que faças como quiseres, a mim pouco me importa. Uma vez mais, acusas-me de, uma vez mais, terminar a discussões sempre da mesma maneira, afastando-me e transformando-a na má da fita. Não é nada disso. Não entendes. É que realmente pouco me importa onde pões o raio de relógio. Nunca me importou. Mesmo. Só tentava, uma vez mais, tentar encontrar um pouco de lógica na tua linha de raciocínio. Por estar tão habituado à tua visão clara, racional e inequívoca do mundo, nunca sei como reagir quando de repente sais do padrão. Enfim, o que esta casa precisa é de uma garrafa de whisky.
Na nossa primeira grande discussão, há vinte meses, faço o mesmo, é verdade. Tinha decidido passar duas semanas na Irlanda. Sozinho. Sempre gostei de viajar sozinho. Não achas grande piada ao tema e rebentas. Um evento tão raro como assustador. Acusas-me de egoísmo. Verdade. Não entendes como nem sequer te convidei. Não esperava que entendesses. Não havia nada para entender e, no entanto, a discussão dura horas e hora. Finalmente anuo. Cancelei a viagem para passar esses quinze dias contigo no Algarve. Odeio o Algarve. Odiei-te e odiei-me por ceder naquele momento. Daqui a vinte minutos pouco me importa onde pões o relógio do teu avô.
Da mesa para o móvel da parede. Do móvel da parede para estante dos meus livros. Passeias o relógio de um lado para outro numa missão impossível de descobrir onde fica melhor. Melhor é um termo muito relativo, claro. Sentado no sofá, discordo metodicamente.
Daqui a um ano e meio, sais de casa. Depois de dois anos de namoro, um e meio de convivência está-me a dar a volta a cabeça. A tua presença em casa. Constante. A tu incapacidade repentina de aceitar os meus horários e hábitos de trabalho que nunca antes te tinham incomodado. As tuas oscilações de humor repentinas que, das duas uma, ou se desenvolveram ao largo deste ano e meio ou as soubeste esconder muito bem de mim antes de mudança, saturam-me. Sinto-me abafado. Invento desculpas para ficar a trabalhar até tarde e em casa encerro-me em copos de Glenlivet com gelo. Tu não aguentas mais e, daqui a um ano e meio, vais-te embora.
Não será a primeira vez que me deixas. Há coisa de um ano decides acabar comigo. Nesse momento acreditas, ou pelo menos dizes acreditar, que a relação não tem futuro porque eu não sou capaz de me comprometer. Acusas-me, com razão, de que eu te vejo como um elemento alheio e estranho, com um lugar indefinido na minha vida. Sem argumentos calo-me e aceito a tua decisão. Dois meses depois voltas. Convidei-te para jantar e sugeri fôssemos viver juntos. Com lágrimas nos olhos dizes-me que sim e voltas a beijar-me. Que expressão mais brutal, acabar com alguém.
Saio à rua, daqui a vinte e cinco minutos, à procura de um sitio qualquer que me venda uma garrafa de Glenlivet a esta hora, enquanto tu continuas a passear o relógio de móvel em móvel.
Há um ano e um mês estou na cama com uma companheira de trabalho, deitado nu ao lado do seu corpo adormecido, a pensar que o meu lugar é ao lado do teu corpo adormecido. Decido recuperar-te, nem que tenha de ir viver contigo.
Daqui a um ano e sete meses estás na cama com um jovem que conheceste no escritório. Ele está apaixonado por ti e tu tentas esquecer-me perdida na paixão, incondicional e algo torpe, com que ele faz amor. Eu não estou, nem estarei, com ninguém, até que voltes a viver comigo, daqui a um pouco menos de dois anos. Promessas de parte a parte, o jovem de coração partido e nós juntos na mesa a jantar. Frente a frente. Nós juntos na cama. O teu corpo adormecido ao meu lado e eu a pensar se o meu lugar é realmente aqui.
Finalmente decides-te pelo móvel da televisão. Mesmo ao lado do ecrã. Acreditas que o contraste do moderno e do antigo dá um toque iconoclasta ao arranjo. Daqui a quarenta minutos volto a casa de Glenfiddich na mão. Não tinham Glenlivet. Tu perguntas e eu respondo, pouco me importa onde fica o relógio. Começamos bem.
Há um ano e meio digo-te pela primeira vez que te amo. Tu há muito que me o dizes quase todos os dias. Para mim sempre foi algo complicado de verbalizar assim de forma tão textual e concisa. Contudo, abraçados no sofá a ver uma qualquer série de televisão norte-americana, tal como tu gostas, beijo-te o cabelo e digo-te que te amo. Tu sabes.
A minha indiferença passiva despoleta uma explosão de indignação no teu peito daqui a uma hora. A primeira entre estas paredes acabadas de pintar. A casa também é minha, dizes, a sala é minha, dizes, eu também tenho de tomar decisões, dizes, o relógio agora também é meu, dizes. Este relógio não é, nem nunca será, meu, digo. Perguntas-me como é possível que eu seja assim, se não tenho noção de que a minha atitude te põe furiosa, se não sou capaz de fazer uma pequena concessão nem para uma coisinha destas. Não.
Daqui a seis anos está a ver o teu chefe no loft dele quase todos os dias depois do trabalho. Excepto quando estou de folga, aproveitas o meu horário para buscar conforto, segurança, carinho ou seja lá o que for. Saem do trabalho com uns minutos de diferença para não levantar suspeitas e encontram-se momentos mais tarde abraçados na cama. Em casa és tu que te afastas e te fechas a sete chaves. Ao fim de tanto tempo aprendeste comigo a arte da indiferença e da distância controlada, mesmo num espaço tão exíguo. Confuso, desconhecedor da realidade dos factos, perco-me em tentativas estúpidas de solucionar um problema que pouco ou nada tem a ver comigo. Já não me amas. Não és capaz de me voltar a deixar, depois de tudo o que passámos, más já não me amas. Simples.
Há quatro meses estou sentado sozinho em minha casa com um whisky na mão. Acredito sinceramente que és a mulher da minha vida. Prometo-me em silêncio ficar contigo para sempre. Apoiar-te em todas as ocasiões. Manter-me ao teu lado passe o que passe. Sei que te amo. Não tenho dúvidas que tu também me amas. Entre golo e golo de Whisky vou desenhando a nossa vida juntos.
Daqui a dez anos estamos sentados no sofá cara a cara. Sem nos tocarmos. Eu digo-te que já não te amo e que também não acredito que me ames. Sei que às vezes ainda vês o teu ex-chefe, apesar de que me tenhas prometido, dois anos antes, que estava tudo terminado e que não sentias nada por ele. Protestas e improvisas um plano de emergência para nos salvar. Um espaço. Um tempo. Uma viagem juntos a um lugar qualquer. Uma vez mais, não entendes. Pouco me importa. Entre o teu vai e o teu vai, eu vou para nunca mais voltar.
Daqui a dez anos e meio escrevo isto como se fosse hoje e pergunto-me onde estará relógio do teu avô.

